Stephen Kanitz recomenda otimismo com cautela
Conrado Mazzoni
(cmazzoni@brasileconomico.com.br)
17/02/10 08:10
O pessimismo vai sendo substituído por excesso de otimismo, acredita Kanitz
Depois de pregar fim da crise, há um ano, mestre em administração agora não vê expansão “tão grande”.À espreita do clássico pessimismo de Nouriel Roubini e das previsões de catástrofe para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2009, como os 4,5% negativos endossados pelo banco americano Morgan Stanley, Stephen Kanitz pregou o fim da crise no Brasil há exatamente um ano.
A recuperação da economia brasileira no decorrer do segundo semestre do ano passado e a valorização anual de 83% do Ibovespa ilustram o acerto do mestre em administração de empresas pela Harvard University e ex-professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
Em conversa com o Brasil Econômico abordando as perspectivas para 2010, Kanitz parece novamente mais distante do consenso. Com o Brasil assumindo a cartilha de bola da vez, ele não espera um crescimento "tão grande como se imagina".
Para Kanitz, contaminado pelas projeções nebulosas, o empresariado travou investimentos, aniquilando a expansão da oferta e, consequentemente, gerando inflação. Restará elevar os juros. E mais: uma pesquisa de sua autoria mostra que 40% dos brasileiros temem perder o emprego. "É o dado que mais me preocupa".
Brasil Econômico - No ano passado, o senhor remou contra a maré pessimista e decretou que a crise tinha acabado no Brasil. Agora a moda é otimismo com o país. Continua nessa direção?
Stephen Kanitz - Quem estava supernegativo, talvez até por consciência de culpa, acabou percebendo que estava errado e agora vai para o outro lado com excesso de otimismo. Mas já em outubro eu alertei: tome cuidado com esse exagero.
O crescimento não será tão grande como se imagina, exatamente por conta de gargalos de falta de investimentos do ano passado para este ano, em parte pelo catastrofismo gerador de incerteza ao empresário.
Por definição, isso vai nos prejudicar em 2010 e, infelizmente, teremos que aumentar a taxa de juros. Há algo que me preocupa muito. Uma pesquisa feita com os departamentos de Recursos Humanos das empresas mostrou que 40% dos funcionários temem perder o emprego nos próximos 12 meses.
Esse dado já foi de 45% em maio, caiu para 35% em novembro e, surpreendentemente, em dezembro, começou a aumentar novamente.
É um erro estimar um crescimento elevado do consumo em 2010, diante
desse medo psicológico. Ninguém está atento que esse medo latente
continua.
Não adianta dar um incentivo fiscal para a compra de automóveis, se você tem esse cenário de 40% dos brasileiros em pânico. Ele não vai comprar a prazo, temendo ser demitido.
A ironia é que, destes 40% que estão com medo, no pior dos casos somente 2% vão perder o emprego. O rol de 38% está com medo à toa. Nos EUA, são 100% com medo.
BE - O senhor tem sugestões para combater esse problema?
SK - No ano passado, eu entreguei essa pesquisa ao deputado Antônio Palocci (PT-SP), que é um acesso que tenho ao governo, e apresentei algumas propostas.
Primeiramente, sugeri um incentivo fiscal às empresas que se comprometessem a não despedir funcionários nos 12 meses seguintes. O empresário poderia substituir, mas não poderia eliminar postos de trabalho. E aí ele teria direito de não ter que pagar o FGTS (Fundo de Garantia de Tempo de Serviço). Mas as empresas queriam o direito de demitir ao menos cerca de 1%, 2% de sua força de trabalho, coerente com um plano de melhoria e eficiência.
O governo resistiu. Contudo, a ideia de dar algum benefício [crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social)] às companhias que não demitissem por um ano acabou sendo reproduzida em planos para alguns setores.
Outra medida era de isentar do Imposto de Renda a empresa que reinvestisse o lucro. Mas não prosperou.
BE - Olhando mais à frente, concorda com a hipótese de Brasil e China protagonizando o novo ciclo de crescimento global?
SK - Sim. E por uma razão muito simples. Compare o Brasil de hoje com o da crise de 1998. O Brasil de antes não tinha reservas acumuladas, ao contrário do atual.
Os administradores, como o Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), sabem não ser possível prever o futuro. Assim, a única saída é ter reservas suficientes para sobreviver a uma crise.
Em 1998, tivemos que nos endividar com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e, quando tudo melhorou, ficamos atrasados pagando a dívida. É o que vai ocorrer com os Estados Unidos agora.
A crise vai passar, mas eles não vão desfrutar da bonança porque vão ficar cinco, seis anos pagando essa dívida.
O Brasil sai na frente porque não precisará fazer isso. Nossas reservas, inclusive, vão nos permitir comprar empresas dos Estados Unidos. Então não é só escapar de crises, a história de reservas mostra que poderemos sair na frente, graças ao Meirelles.
É assim que se ganha competitividade e mercado em outros países.
BE - Esse argumento não ignora a enorme capacidade de
inovação nos Estados Unidos? Veja o tablet (ou prancheta) iPad, lançado
pela Apple...
SK - Na China. A Apple está produzindo na China. Bom, 20% da população americana é formada em administração. Aqui no Brasil somos inovadores sim, mas não conseguimos implantar as brilhantes ideias que produzimos.
Creio que isso vai mudar. Teremos 2 milhões de administradores formados ao final deste ano. Essa cultura de que precisamos de administradores para implantar nossas grandes ideias é uma coisa recente. Eu não seria pessimista.
É algo que o chinês tem na figura do engenheiro de produção, a pessoa que implanta a ideia boa.
BE - Como o cenário eleitoral brasileiro está inserido nesse contexto?
SK - Vejo o José Serra ou a Dilma Rousseff como bons candidatos a fazer o que o Brasil precisa: tornar o Estado mais eficiente.
O setor privado já está com uma eficiência bem melhor do que 20 anos atrás. O que atrasa o Brasil é o Estado.
Falam que Dilma e Serra são broncos, mas eu acho isso uma qualidade. Eles não têm medo de fazer inimigos.
O governo Lula foi um belo governo, mas foi muito preocupado em fazer amigos. Precisamos de alguém que fale ‘não' de vez em quando.
Enfim, não vejo muita diferença entre os dois candidatos. Ambos serão muito bons pelo momento histórico que vivemos.
Comentários
