O Brasil Que Dá Certo foi escrito entre outubro de 1993 e março de 1994. Nele, fiz uma série de previsões acerca do futuro do pais.
Previ que nunca mais haveria inflação de dois dígitos no Brasil.
Previ que o Japão permaneceria estagnado durante os anos 90 e 00.
Previ e aconselhei empresas a priorizarem o segmento de produtos populares (isto em 1994), cinco anos antes de gurus administrativos americanos postularem a base da pirâmide como estratégia empresarial.
Previ que a Bolsa de Valores subiria 10 vezes em 10 anos. Errei. Demorou 12 anos.
O livro traz uma análise correta da realidade brasileira, o que me permitiu fazer as previsões que fiz, e serve hoje como ponto de partida para historiadores da época.
Curiosamente, nele delineio as razões da Crise de 2008, as mesmas que causaram a Crise da Dívida externa de 1982.
Eu fiz uma versão mais resumida do livro original, colocando algumas observações posteriores (assinaladas por NB.) e sublinhando o que é relevante até hoje, como fundo histórico da realidade brasileira.
PREFÁCIO
No entanto, neste livro iremos olhar a economia não pelos seus grandes números, e sim através dos dados resultantes da análise de milhares de pequenas e médias empresas, das 1000 maiores empresas e das 50 mil franquias instaladas no país. Estes são os números relevantes numa economia moderna.
A análise de um país atualmente é feita de baixo para cima e não de cima para baixo; não se começa mais pelo ministro da Fazenda e sua política econômica. O que muda um país são os milhares de pequenos empresários, executivos, microempresas, franqueadores e franqueados. Esta obra não tem a elegância de um livro de economia, justamente por tratar ao mesmo tempo de tantas variáveis e personagens. (NB. Numa revisão pessimista do Plano Real e deste meu livro, um famoso economista, em “A Crise Está Aí”, desqualificava minha capacidade de análise econômica porque me baseava nas análise das 1.000 maiores empresas brasileiras. O tempo provou quem estava certo e quem errou nas suas previsões.)
O Brasil passou ao longo dos últimos dez anos por grandes mudanças que não transparecem nas estatísticas econômicas. E graças a essas mudanças o País vive um novo ciclo de desenvolvimento, iniciando timidamente em 1992 e consolidado em 1994, que se estenderá provavelmente até 2005. ( NB. Os pessimistas de plantão recusaram a comentar o livro, apesar de ele receber o Prêmio Jabuti em 1995. O curioso é que ninguém me perguntou porque eu achava que nosso crescimento iria terminar em 2005.)
Cresceremos menos se tivermos um governo federal que não consiga perceber os novos tempos e as novas concepções gerenciais. Cresceremos mais se os futuros dirigentes souberem agir como catalisadores do crescimento, em vez de insistirem no papel de geradores do crescimento. O catalisador obtém o melhor resultado com mínimo esforço.
O mundo mudou. Não são mais os grandes planos macroeconômicos que determinam o sucesso ou o fracasso de uma nação do ponto de vista da economia. São os pequenos detalhes, que fazem parte do dia-a-dia dos negócios das empresas, sejam elas pequenas, médias ou grandes, que passam a ser exaustivamente estudados e registrados nos livros de administração de empresas, a nova coqueluche do mercado editorial. Detalhes como vocação, criatividade e determinação dos jovens empreendedores que mudam o perfil empresarial brasileiro e acabam, aos poucos, com a era de domínio absoluto das grandes empresas sobre a economia do país. Hoje se fala das novas relações humanas nas empresas, que estimulam o empregado a ser mais responsável pelo produto que fabrica e, ao mesmo tempo, estimulam os empresários a fazerem desse mesmo empregado um parceiro nos negócios.
Este livro vê o Brasil sob a ótica da organização produtiva, como se fosse uma grande empresa e a partir daí descobrimos coisas fantásticas, como, por exemplo, que o nosso país não é uma empresa superendividada como os economistas do FMI insistem em dizer há mais de dez anos. Devemos muito pouco em relação ao nosso patrimônio. Situação ali similar à das empresas brasileiras que estão entre as menos endividadas do mundo.
Não sou um otimista messiânico.
Portanto, não sou otimista nem pessimista. Tento transmitir ao leitor, e aos que acompanham a discussão destas idéias, por meio de seminários e palestras que tenho realizado em dezenas de empresas pelo país afora, anos de experiência na análise da economia brasileira. As surpresas vêm dos pequenos números, das pequenas empresas, dos pequenos empreendedores e dos pequenos negócios.
Ao contrário do que aparenta, o Brasil não é um Boeing 747 que voa sem rumo e precisa de um bom piloto no Ministério da Economia. O Brasil é a soma de milhares e milhares de teco-tecos, cada um no seu rumo, voando muitas vezes em direções opostas. Se o ministro da Fazenda errar, o Brasil continua. Este livro falará justamente sobre os teco-tecos que cruzam os céus do País e não sobre os ministros que ficam em Brasília.
Capítulo 1
O milagre econômico brasileiro, como ficou conhecido o ciclo de maior prosperidade já vivido pelo País, foi, na verdade, o milagre do crescimento com financiamento barato. O dinheiro habilmente atraído pelas empresas estatais e também pela iniciativa privada veio das poupanças disponíveis em nações mais ricas na forma de empréstimos com juros de 3% ao ano, ao fantástico ritmo anual de US$15 bilhões durante mais de uma década.
Os surtos de crescimento da maioria dos países ricos ocorreram na metade do século passado, numa época em que não existiam mecanismos de captação financeira como os eurodólares. O capital que financiou o seu desenvolvimento foi gerado internamente à custa de grandes sacrifícios da população. Trabalhadores eram submetidos a longas jornadas de trabalho em péssimas condições, recebiam baixos salários e geravam a mais-valia, diferença justificada pelo sistema capitalista como necessária para reinvestir em novos equipamentos e infra-estrutura.
Esse processo de acumulação interna de recursos, duramente criticado por seguidores do pensamento marxista que o consideravam corretamente mais uma forma de exploração do trabalho pelo capital, foi o modelo seguido por países como Inglaterra e Estados Unidos durante seu processo de industrialização.
A criação no Brasil de mecanismos como a Resolução 63 e a Resolução 4.131, ainda na década de 1960, abrem as portas para a poupança internacional. É importante lembrar que há uma enorme diferença entre capital externo e poupança externa.
Capital externo é o dinheiro próprio de empresas multinacionais, que vêm ao Brasil abrir subsidiárias e, como todo investidor, projetam retornos de 15% a 20% ao ano sobre o seu investimento. No caso brasileiro, o investidor americano quer até mais do que 20% ao ano por causa dos riscos inerentes aos negócios no País.
Nós crescemos substituindo a mais-valia marxista pela mais-valia financeira.
Até 1963, o Brasil recebia apenas o capital estrangeiro que demandava uma taxa de retorno elevada. A partir de 1964 e 1965 abre-se a possibilidade de captar diretamente empréstimos bancários, provenientes de recursos gerados pelas poupanças das velhinhas de Londres e Nova Iorque, que rendiam juros de 3% ao ano, descontada a inflação.
Pela primeira vez na sua história o Brasil teve acesso a dinheiro muito barato. Estatais e empresas privadas investiam esses recursos a um retorno de 20% a 25% ao ano e a diferença, entre os 3% e os 25%, ficava no país. No fundo, nós crescemos substituindo a mais-valia marxista pela mais-valia financeira.
Curiosamente o Brasil acabou explorando as velhinhas de Londres, os pequenos investidores e alguns xeques árabes que ficavam satisfeitos com juros de 3% ao ano.
As exigências relativamente simples, inerentes ao dinheiro que entra na forma de empréstimo facilitam a vida das empresas. A subsidiária de uma multinacional, quando traz capital da matriz, importa também um corpo administrativo e uma auditoria externa, além de restrições e amarras como as consultas periódicas obrigatórias às sedes lá fora. Já o empréstimo externo requer apenas o pagamento de juros a cada seis meses e do principal, pago no prazo estipulado, normalmente dez anos.
Inauguramos assim um surto de crescimento fantástico. Boa parte da opinião pública brasileira vê, equivocadamente, com muito maus olhos qualquer processo de endividamento, e esquece que uma dívida com juro baixo é a melhor coisa que pode acontecer a um país. Desaconselhável é endividar-se a juros estratosféricos, como ocorreu em 1994, com as taxas atingindo níveis de 25% ao ano.
Um dos indicadores mais expressivos desse ciclo de prosperidade é a produtividade da mão-de-obra, que cresceu de forma contínua na década de 1970 contra uma nítida estagnação durante os anos 80, a década perdida.
Aumentar a produtividade de um trabalhador nem sempre significa obrigá-lo a trabalhar mais num menor período de tempo ou usar métodos como o taylorismo e o fordismo, que estudaram cientificamente os mínimos movimentos do trabalhador para que ele, com o menor esforço possível, produzisse o dobro no mesmo período de tempo.
O mundo moderno sabe que a melhor forma de aumentar a produtividade do trabalhador é associá-lo a equipamentos mais avançados e, portanto, mais caros. Existe uma nítida relação entre o capital investido num trabalhador e a produtividade por ele gerada. O operário brasileiro produz, em média, US$98 mil de receita anual, contra US$250 mil gerados por um operário americano no mesmo período.
Em contrapartida a uma produtividade três vezes maior, o trabalhador americano recebe quase o triplo em investimentos, US$265 mil, contra US$97 mil investidos em média no trabalhador brasileiro, incluídos aí itens como equipamentos, máquinas, galpões, estoques, entre outros.
A maior produtividade do trabalhador americano é diretamente proporcional ao capital nele investido. O operário brasileiro é tão competente quanto o trabalhador americano, já que produz proporcionalmente quase a mesma coisa. O que lhe falta são máquinas mais modernas que melhorem seu nível de produtividade e permitam elevar seu salário em três ou quatro vezes, proporcionando uma renda mais próxima a dos países mais ricos.
Entretanto, estes são números de primeiro mundo. No parâmetro das 500 maiores empresas brasileiras o custo de um novo emprego, em termos de equipamentos, instalações e estoques está em torno de US$98 mil, o que demandaria um investimento anual de US$147 bilhões. Ainda um número muito alto para ser financiado exclusivamente pela poupança interna.
Criar e equipar corretamente uma vaga em uma empresa brasileira ao custo de US$98 mil equivale à despesa para a montagem de um consultório odontológico. Alguém precisa construir e financiar esse consultório para que o dentista possa trabalhar. O mesmo acontece com uma vaga aberta na indústria brasileira.
Nem todas as novas vagas abertas na economia brasileira obedecerão ao padrão das 500 maiores empresas do País. Muitos desses 1,5 milhão de empregos serão gerados na economia informal, ou nas empresas menores, onde o investimento é bem mais baixo, entre US$20 mil e US$48 mil por trabalhador.
Na década de 1970, o Brasil investiu de forma contínua no trabalhador, com a entrada maciça de dinheiro do exterior. Por estes fatores, crescemos de 1936 a 1976 mais do que o Japão. O Brasil só perde o seu posto ao Japão porque sofre uma estagnação na década perdida.
Um outro aspecto que deve ser levado em conta é a ampla base industrial instalada no Brasil, em conseqüência da política de substituição de importações implantada na década de 1970. Com alíquotas de importação proibitivas e legislações protecionistas, o País passou a produzir de tudo para um mercado praticamente cativo. Ao contrário dos japoneses, que se especializam em algumas áreas como eletrônica e automóveis, o Brasil tem um parque industrial dividido em nada menos que 32 setores.
Uma situação paradoxal porque de um lado contraria preceitos da economia moderna, que sugerem uma atuação mais enfocada e mais concentrada setorialmente, mas de outro essa imensa base industrial poder alavancar a retomada da economia.
O aspecto negativo dessa base industrial amplamente pulverizada é a estrutura empresarial favorecida pela política de substituição de importações, que concentra em um setor apenas dois ou três concorrentes, trazendo como conseqüência os oligopólios setoriais.
No Japão existem 12 fabricantes de automóveis exercendo uma competição acirrada, às vezes até predatória, na luta pela produção de um carro melhor e mais barato.